Baratas - Capítulo 4 - Armazém

 Novamente, Terminator permaneceu observando o inimigo durante alguns dias. Do alto de uma árvore, seus olhos treinados captavam todos os movimentos dentro e ao redor do armazém. Tratava-se de um grande galpão, um pouco a leste da ilha, onde se estocava diversos tipos de mantimentos, materiais e ferramentas.  

Dessa vez, o trabalho de reconhecimento foi mais fácil. Isso porque as baratas geneticamente modificadas que ocupavam aquele local eram maiores (cerca de 2m) e mais lentas que as espécies anteriores. A julgar pela coloração escura da cabeça e pelo longo abdômen alaranjado, o especialista concluiu que aquelas eram baratas da espécie Gromphadorhina portentosa

No dia anterior ao ataque, o exterminador começou os preparativos, montando e regulando seu lança-chamas. A estrutura desse equipamento assemelhava-se muito ao pulverizador de veneno utilizado na última batalha, com a diferença de que a mangueira e o bico regulador acoplavam-se ao seu pulso direito. Ele encheu o cilindro com querosene, checou a mangueira, a válvula de liberação e a chama piloto. Feito isso, estava tudo pronto e Terminator iniciou a ofensiva.

O interior do armazém era a própria imagem do abandono. Havia sacos, caixas e ferramentas espalhadas por todos os lados. As lâmpadas estavam quebradas e as gôndolas tombadas. Terminator andava com cautela em meio à desordem, enquanto olhava ao redor buscando pelo inimigo que, de acordo com seu Sentido Barata, estava bem próximo. 

De repente, o homem ouviu um baque logo atrás de si. Ele virou rapidamente e deparou-se com uma enorme barata. O monstro tentou agarrá-lo, o homem recuou, mas tropeçou em algo e tombou no chão. O monstro, agora em posição de vantagem, tentou esmaga-lo com seus pés poderosos. Porém, o homem conseguiu arrastar-se para o lado, evitando ser pisoteado.

Ainda no chão, ele estendeu o braço direito na direção do alvo e pressionou o gatilho. O combustível foi lançado, e logo em seguida uma poderosa chama engoliu a barata, que começou a correr desesperada, esbarrando em tudo pelo caminho. Depois, alguns metros à frente, tombou completamente carbonizada.

Recomposto, o homem se levantou. Mas já era tarde, outras duas baratas vinham pelo corredor, ao seu encontro. Ele disparou a chama e uma das baratas foi atingida. A outra, porém, correu para trás de uma gôndola e empurrou o pesado objeto, que caiu sobre o homem. 

O exterminador estendeu o braço por um vão e disparou, incinerando o alvo. Depois, suas mãos fortes moveram o obstáculo, livrando seu corpo. Após, ele continuou seguindo em frente, até um ponto em que os corredores se cruzavam, de modo que ele pôde avistar mais baratas se aproximando de várias direções. 

Uma delas começou a desferir socos poderosos que, não fosse a agilidade do homem para esquivar-se, teriam causado muito estrago. Usar o lança-chamas àquela curta distância era perigoso, então o exterminador ariscou trocar alguns socos com a criatura. Mas os golpes quase não surtiram efeito, devido ao porte físico robusto do inimigo. Então, ele decidiu correr. De fato, os inimigos eram lentos e ele pôde ganhar distância suficiente para disparar com o lança-chamas, matando-os.

E eis que, de repente, o homem sentiu-se agarrado pelo pescoço e arremessado para trás, vindo a chocar-se violentamente contra uma gôndola de aço. Ele havia baixado a guarda por um instante e não notou um inimigo que se aproximara por trás. 

Com o homem ainda zonzo, a barata montou sobre ele. O enorme peso da criatura deixou-o quase sem ar. O monstro tentou abocanhar-lhe o rosto, mas ele reagiu, enfiando o bico regulador na boca da criatura e arriscando um disparo literalmente a queima-roupa. O mostro foi ficando vermelho e quente, até que explodiu. Felizmente, o revestimento à prova de fogo da roupa do exterminador bastou para protege-lo das chamas.

Terminator, então, recobrou o fôlego e voltou a avançar. Durante o período de observação, ele constatara que o número de baratas naquele local era reduzido. E, de fato, após checar diversas secções do galpão, não encontrou mais nenhuma barata.

Finalmente, ele chegou à última sala do armazém, a maior de todas. A grande e pesada porta de metal estava trancada por uma grossa corrente. Mas isto não foi obstáculo para o exterminador, que a arrebentou sem dificuldade. No interior, o lugar estava abarrotado de caixas que, seja lá o que contivessem, ostentavam o selo que alerta para a presença de material inflamável.

Então, eis que se ergue de trás de uma pilha de caixas, uma silhueta enorme. Uma barata com cerca de 3m, extremamente musculosa. Tão logo seu olhar recaiu sobre o homem, o monstro avançou com sanha assassina, embora um tanto desajeitado.

O homem ajustou seu equipamento para a vazão total e disparou. Uma imponente língua de fogo envolveu o inimigo. Porém, este não interrompeu seu avanço e socou o homem nas costelas. A força do golpe arremessou Terminator contra uma pilha de caixas. A dor que ele sentiu indicava que, provavelmente, ocorrera uma fratura.

Mas não havia tempo para sentir dor, pois o inimigo já se aproximava novamente. O homem, então, pensou rápido. Estendeu a mão, agarrou uma barra de ferro que encontrou ao seu lado e lançou-a entre as pernas do monstro desengonçado, fazendo-o tropeçar e cair. Com isso, o homem ganhou tempo para um novo disparo e o fogo cobriu o monstro por inteiro. 

Contudo, as queimaduras foram apenas superficiais e ele continuou se movendo. Terminator começou a correr, com dificuldade, apoiando-se nas paredes. Sua ideia era dar uma canseira no monstro. Ele torceu para que sua estamina fosse maior que a de seu perseguidor.

De fato, o monstro, com seu porte corpulento, se cansou muito antes do homem e parou imóvel no centro da sala. Essa era a chance que o exterminador esperava. Ele começou a disparar novamente, mas dessa vez contra as caixas. Com isso, focos de incêndio começaram a surgir aqui e ali, de modo que em pouco tempo a sala inteira estava em chamas. 

Não é preciso dizer que o plano era quase suicida. Então, assim que pôde, o homem correu de volta para a entrada do galpão. Antes, porém, lançou um breve olhar para trás e viu o momento em que uma parte do teto cedeu, devido ao calor, e desmoronou sobre a gigantesca barata, aniquilando-a. 

Mas agora, quem estava em seu encalço era o próprio fogo. O exterminador olhava para os lados buscando uma saída, mas todas as portas e janelas estavam obstruídas. Por ironia do destino, Terminator parecia preso em sua própria armadilha flamejante. 

Eis que ele teve uma ideia: improvisar uma rota de fuga à força. Apesar da dor que sentia na costela, o homem agarrou uma das pesadas gôndolas de aço, concentrou toda sua energia nos poderosos braços e usou o objeto como aríete para abrir um buraco na parede do galpão.

Assim que saiu, o homem correu até uma distância segura e observou o armazém que se desfazia, engolido pelas chamas infernais. O espetáculo pirotécnico era uma cena dantesca. Sem dúvida a terceira vitória de Terminator sobre as baratas mutantes havia sido gravada a ferro e fogo.


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¹ Ou barata-de-madagascar. É uma das maiores espécie de barata, e originária da ilha de Madagascar.