De um local estratégico sobre uma colina, Terminator observava um ponto logo abaixo com um binóculo. Apenas dois dias após sua chegada naquela ilha, ele já havia compreendido toda a situação. À sua frente estava a costa norte da ilha e, na praia, uma instalação de pequeno porte, da qual estendiam-se até a água longos eixos mecânicos que subiam e desciam incessantes. Tratava-se da usina maremotriz que abastecia a ilha.
Como da última vez, o Sentido Barata do exterminador alertava para a presença das pragas. De fato, por diversas vezes, o homem observou figuras humanoides rastejarem pelas paredes externas. Mas a construção era maciça, sem janelas ou vãos, dificultando a estimativa de quantas baratas havia lá dentro.
O que mais despertou a curiosidade do experiente profissional é que os monstros desse local eram levemente diferentes dos anteriores: menores (por volta de 1,50m), mais ágeis e de coloração castanho-claro, com duas faixas longitudinais escuras no pronoto. Certamente essas eram Blatella germanica modificadas.
Naquela noite, o homem retornou à sua base na costa sul da ilha, foi à caixa de provisões e começou a preparar o equipamento. Espécies diferentes exigem métodos diferentes. O homem pacientemente começou a montar seu pulverizador especial de veneno: um cilindro de titânio com volume de 10 litros; alças reforçadas, para carregar nas costas; mangueira com válvula de liberação e bico regulador de vazão, que se acoplava ao seu pulso esquerdo.
Quanto ao veneno em si, veio cuidadosamente lacrado em um recipiente de vidro blindado. O conteúdo era dicloro-difenil-tricloroetano reverso com ligações de arsênico, mais conhecido como Super DDT. Um veneno tão poderoso, que sua comercialização foi proibida e o método de produção foi considerado segredo militar.
A substância era um líquido verde-musgo repulsivo. Porém, dependendo do método de preparo, ele podia assumir diversas formas: gasosa, pastosa, granulosa ou pó. O homem separou a substância em duas porções. Misturou a primeira porção do veneno com o solvente adequado e encheu o cilindro com a solução. Depois, adicionou a segunda porção a um pó escuro e o introduziu em esferas metálicas, semelhantes a granadas.
Quando a tarde caiu, o exterminador já estava em posição para invadir a usina. Arrombou a porta da frente com um chute. Atrás dela havia um longo e escuro corredor. Ele lançou algumas das esferas metálicas e recuou. Alguns segundos depois, um estouro, e uma densa fumaça esverdeada encheu o corredor.
Como esperado, teve início uma agitação, e logo várias baratas arremeteram pela porta. Alguns metros depois, elas caíram ao chão debatendo-se freneticamente, contorcendo o abdômen e chacoalhando as antenas, completamente impotentes. Por fim, morreram estiradas ali mesmo. Terminator sorriu com desdém ao vê-las assim. Esse veneno era o melhor de todos e nunca o havia deixado na mão.
Agora, era hora de entrar. Como já dito, o corredor era escuro, mas isso não era problema para o implacável exterminador, que desenvolvera visão noturna. O veneno ainda suspenso no ar sob a forma de pó também pouco o afetava, por conta de seu sistema imunológico super adaptado. Apenas vestiu a máscara de gás que trazia pendurada no pescoço e foi o suficiente.
Porém, tão logo entrou, ele foi atacado por um grande grupo de baratas. Como essas eram menores que as anteriores, ficavam ao alcance das poderosas pernas do homem, que as chutou e as fez voar pelos ares. Depois, enquanto ainda estavam caídas e atordoadas, borrifou veneno sobre elas, à tira-roupa. Elas se debateram horrivelmente e logo morreram.
O corredor terminava em uma sala ampla cheia de computadores e terminais eletrônicos, era a sala de operações. Dessa vez, não havia quaisquer corpos humanos, como no dormitório, pois o sistema foi feito para operar de forma totalmente autônoma.
Mais baratas apareceram, mas dessa vez o espaço era amplo, oferecendo a elas maior mobilidade. Foi então que o homem percebeu quão ágil e numerosa essa espécie realmente era. Havia pelo menos centenas delas correndo e rastejando ao seu redor, encurralando-o dentro de um pequeno círculo.
O homem borrifava veneno, mas o inimigo desviava ziguezagueando ou subindo pelas paredes, e o líquido caia inútil no chão de concreto. Então, recorreu novamente às granadas, arremessando três delas contra as baratas.
A estratégia funcionou. Com aquele ataque em área, dezenas de baratas tombaram, contorcendo-se. E aquelas que estavam no limite do raio de dispersão ficaram atordoadas, podendo ser finalizadas com o veneno líquido.
Mas ainda assim, a quantidade de baratas só aumentava. O círculo foi se fechando e o homem se sentiu realmente sem saída, quando os inimigos se aglutinaram sobre ele e o soterraram sob seus corpos fervilhantes.
Nesse momento, Terminator concentrou toda sua energia nos músculos das pernas e saltou. O homem emergiu como um foguete do mar de baratas e alcançou o teto, onde agarrou a tubulação de ar. Com isso, ele estava fora do alcance inimigo por algum tempo, mas ainda precisava agir rápido. Foi então que teve uma ideia.
Ele prosseguiu balançando pela tubulação, enquanto defendia-se borrifando veneno contra as baratas que começavam a escalar as paredes. Foi assim que chegou até uma sala no nível superior, da qual partiam os dutos de ventilação. Uma vez lá, ele despejou todas as granadas de veneno que lhe restavam.
Depois de alguns minutos, uma névoa verde começou a desprender-se das saídas de ar. Toda a instalação foi tomada pela névoa tóxica, fazendo as baratas tombarem agonizantes, uma após a outra. Aquelas que ainda podiam correr buscavam uma rota de fuga, mas era em vão.
Foi quando o homem percebeu que já era seguro retornar ao nível do solo. Mas era difícil andar naquele ambiente. Era possível ouvir estalos sob seus pés, conforme ele pisava sobre os corpos agonizantes das baratas. E um cheiro asqueroso empestava o ar, tanto quanto o próprio veneno. O especialista logo o reconheceu como aquele típico odor liberado por essa espécie, quando se sente ameaçada. Para ele, porém, esse era o cheiro da vitória.
Ao se aproximar da porta que conduzia à próxima sala, Terminator sentiu um aumento considerável na temperatura ambiente, assim como no formigamento que seu Sentido Barata lhe causava.
-É como eu imaginei – começou ele – elas infestaram esse lugar por causa do calor que emana dos condutores elétricos.
Quando penetrou no novo ambiente, encontrou tudo aparentemente quieto e vazio. Mas podia sentir algo fervilhar nos cantos escuros, espreitando. À sua frente havia uma máquina cúbica enorme, que recebia a energia gerada pelos eixos mecânicos visíveis do lado de fora. Dela saiam grossos cabos que se espalhavam pelo chão e fios que se espraiavam para o alto.
Sobre a máquina cúbica, uma barata encarava o exterminador com uma expressão quase humana de raiva.
-Espera, essa é diferente – pensou ele – é branca com listras vermelhas no abdômen. Deve ser uma mutação genética.
Essa barata reclinou-se para frente e ergueu o abdômen, de onde começou a exalar um feromônio excepcionalmente forte. E então, as demais baratas apareceram e se acumularam de forma específica sob a barata branca. Os seus corpos, encaixando-se e movendo-se em perfeita harmonia, formaram o contorno de um gigante, cuja cabeça era a própria barata branca. Ela encimava e controlava a estranha estrutura viva como uma líder.
-O feromônio ativa um comportamento coletivo nas baratas!? Essa é uma mutação adaptativa e tanto!
O gigante atacou com um soco. Terminator rolou para o lado, abriu a vazão da bomba no máximo, e borrifou contra o braço enorme. Algumas baratas caíram mortas, mas logo outras surgiram incorporando o braço, que se recompôs.
Depois, o gigante pisou sobre o homem. Quando o gigante ergueu a perna para pisar de novo, Terminator borrifou mais uma vez e baratas agonizantes caíram sobre ele. Mas como antes, novas baratas surgiram e recompuseram a perna. Borrifou diversas vezes na direção da “cabeça”, que era a barata branca. Mas as outras baratas entravam na frente, sacrificando-se por sua líder.
De repente, uma nova e ousada ideia surgiu em sua mente. O homem correu para os cabos no chão e seccionou-os. Uma tempestade de energia elétrica irrompeu, destruindo os demais circuitos. Terminator, antes de ser frito pela eletricidade, atirou o cabo contra a máquina cúbica, que logo explodiu. A explosão rompeu as paredes de concreto, fazendo com que a água do mar invadisse o lugar.
Então, Terminator abriu o cilindro que continha o veneno e deixou que todo o conteúdo derramasse. Quando a água inundou a sala, misturou-se com o veneno, ficando ela própria envenenada.
O gigante feito de baratas foi arrastado pela força avassaladora da água e todas as baratas foram envenenadas ao mesmo tempo, incluindo a líder. Mas Terminator também foi arrastado. Com muito esforço, ele se agarrou a uma estrutura de ferro e por pouco não se afogou.
Quando a velocidade da água diminuiu, ele nadou até a saída. A noite já havia caído no momento em que Terminator deixou a instalação. Ofegante, ele deitou-se no chão para se recuperar. Mas apesar de toda a exaustão, Terminator vencera mais uma vez.
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¹ Energia proveniente do movimento de oscilação das marés. As correntes marítimas e a diferença de altura entre as marés produzem energia cinética, a qual pode ser captada e transformada em energia elétrica.