Baratas - Capítulo 1 – Contratação

Capítulo 1 – Contratação


A luz de um belo dia ensolarado atravessava as janelas do Salão Oval e banhava a mesa de madeira sobre a qual um homem trabalhava. Ele tinha à sua frente algumas pastas e uma pilha de papéis, os quais foleava, agitado, enquanto franzia a testa, em uma clara expressão de preocupação.

Porém, o homem logo foi despertado de seus pensamentos pelo som de passos que ecoavam pelo corredor. Quando a porta se abriu, surgiu uma elegante mulher. Ela se aproximou e disse, em tom respeitoso:

-Senhor Presidente, ele está aqui. Posso manda-lo entrar?

-Claro Elizabeth, obrigado. - Respondeu o Presidente dos Estados Unidos da América, levantando-se de sua cadeira.

A secretária, então, voltou à porta e acenou levemente com a cabeça. Com isso, outro homem adentrou o salão.

Tinha 1,90m de altura, ombros largos e peitoral definido. Os braços aparentavam um diâmetro considerável, mesmo ocultos sob a roupa. Do pescoço, pendia uma máscara de gás. Trajava um casaco camuflado, como de um soldado, mas ostentando fitas laranja-fosforescente, tão brilhantes que incomodavam os olhos. Vestia uma calça semelhante ao casaco, camuflada e contendo as mesmas fitas laranja-fosforescentes. Um par de coturnos pretos concluía seu visual incomum. 

A feição dessa figura tão estranha, tão inconciliável com o ambiente formal da Casa Branca, era igualmente peculiar. Barba por fazer, queixo quadrado, a boca torcida como um cão que rosna, nariz levemente adunco, olhos ocultos por uns óculos de sol evidentemente vagabundos e exageradamente pretos, a testa marcada por leves, porém longas, rugas horizontais. Seus cabelos pretos, embora levemente grisalhos.

Em síntese, tratava-se de um homem de meia idade, com preparo físico de jovem e espírito de velho.

- Senhor Terminator, como vai? Obrigado por vir! – Cumprimentou o Presidente, estendendo a mão para o recém-chegado.

O homem olhou para a mão estendida como se tal gesto não lhe fosse familiar, ou como se não quisesse que fosse. Depois de um breve momento ele correspondeu ao gesto, a contragosto. 

-Então... Senhor Terminator, acredito que já está ciente do caso que o traz aqui. – Começou o Presidente.

-Não.

-Ah, não? Eu lamento, não lhe entregaram o relatório?

-Entregaram. Mas eu não gosto de ler.

-Ah... uhm... entendo. Elizabeth, por gentileza, resuma o caso para o Senhor Terminator. - Pediu o Presidente, engolindo em seco aquele ultraje e fazendo sinal para que se sentassem no sofá.

-Inicialmente, o Senhor precisa ter em mente que essas informações são ultra sigilosas. – destacou a secretária. – Pois bem, existe uma pequena ilha no oceano Pacífico que não consta nos mapas. Mesmo os satélites mais modernos não são capazes de detectá-la, pois foram instaladas antenas que perturbam os sinais de onda, fazendo constar como se ali houvesse apenas água. Por isso ela foi batizada de Kryptos.

Nessa ilha, nosso país mantém uma base de pesquisa científica que realiza experimentos com DNA, a fim de buscar a cura para doenças e promover melhorias no corpo humano. Porém, tais pesquisas se baseiam em práticas vetadas pela comunidade internacional, por serem consideradas antiéticas...

-Transgenia humana. Vocês querem criar super soldados. Já entendi, continue. – Completou o convidado, como se fosse algo óbvio desde o início. 

Constrangida, a secretária olhou para o Presidente, como se pedisse permissão para continuar. O chefe de Estado, resignado, fez sinal afirmativo.

-Bem, há alguns dias nós recebemos um sinal de alerta pelo sistema de comunicação interno das forças de segurança. O sinal vinha justamente de Kryptos. Fizemos um breve contato com um dos administradores do local, Senhor Hobson. Ele parecia realmente desesperado. Relatou que algo muito ruim havia acontecido, que o experimento com artrópodes havia saído de controle e que eles estavam sendo atacados. Depois disso, a comunicação foi cortada.

De imediato enviamos um time de SEALs para lá. Horas depois, apenas um deles retornou, ferido e absolutamente traumatizado. Ele relatou ter presenciado um verdadeiro morticínio, e que seu grupo havia sido atacado por... baratas.

-Membros das forças especiais americanas com medo de baratas? As coisas pioraram muito desde que eu saí, hein? - Caçoou o ouvinte, sorrindo com certa malícia.

-Por mais absurdo que pareça, Senhor, foi o que soubemos. – respondeu a secretária. - Mas há mais uma coisa. Segundo o relato, tratavam-se de baratas gigantes. 

Pela p

rimeira vez Terminator pareceu interessado naquela conversa, inclusive se ajeitando no sofá, como que para prestar mais atenção. 

-E é aqui que o Senhor entra. – agora o Presidente reassumia a frente da conversa – Chegou ao nosso conhecimento que o Senhor é o melhor do mundo nesse ramo de extermínio de insetos. Já fez trabalhos excelentes no mundo todo e é capaz de exterminar qualquer tipo de praga.

-É verdade.

-Pois bem, o que queremos é que entre lá, acabe com essas malditas baratas mutantes, ou seja lá o que forem, e resgate os cientistas sobreviventes, se é que ainda há algum. Desses, é imprescindível que o senhor localize, vivo ou morto, o chefe de estudos científicos, Dr. Michael Roach. Se ele estiver vivo, o prejuízo não será tão grande, pois ele detém todo o conhecimento útil resultante das pesquisas.

Fez-se um longo momento de silêncio.    

-E então, aceita dar essa contribuição ao seu país? – Indagou o Presidente.

-Aceito saber o quanto será pago pelo serviço.

-Não se preocupe, o Estado possui uma reserva de alguns milhões para inconvenientes como esse. – Respondeu o Presidente, já acostumado com a falta de polidez do seu convidado.

-Uhmm, fechado.

Os dois homens se levantaram, e o Presidente estendeu a mão em cumprimento. Dessa vez o gesto foi retribuído sem demora.

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¹ Navy SEALs, é a força de elite da marinha estadunidense. Seus membros são capacitados para realizar missões sigilosas e de alta complexidade em todo tipo de ambiente (terra, mar ou ar).